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23/05/2018

Sabedoria Caipira

Publicado em 18/05/2012

Nas andanças pelo interior, sem perceber, vamos absorvendo termos que, com o passar do tempo, viram

Nas andanças pelo interior, sem perceber, vamos absorvendo termos que, com o passar do tempo, viram rotina no nosso jeito de falar. Outro dia ouvi um "sem sal nem açúcar", seguido por "um par de vasos", carregados de forte sotaque da região piracicabana. Sei que os termos podem soar estranhos para quem viveu ou andou num raio inferior aos cem quilômetros da Capital. Como não é o nosso caso, uma vez o nosso círculo de visitas constantes ao interior vai muito acima disso, viramos ouvintes corriqueiros desses termos.

Citei os fatos para comparar com o que a TV nos mostrou, ainda esta semana, durante o encontro em Cartagena, na Colômbia, reunindo chefes de estado de várias nações sulamericanas. Para que viu o encontro entre a presidenta Dilma e o presidente Obama, dos Estados Unidos, sentados lado a lado, fica uma certa dúvida: quem queria mostrar-se mais sem sal, sem açúcar?

Consciente da importância do Brasil, como nação expoente, Obama fingia respeitar o nosso poderio, mas na verdade fazia um jogo. Apesar das dificuldades que enfrenta, ele sabe que o seu país nunca respeitou ninguém. Sem contar as suas aventuras pelo mundo, sem citarmos a pressão econômica que sempre exerceu, vamos nos recordar de uns fatos bem próximos da sua casa: invasão na República Dominicana, no Panamá, interferência no Chile com a queda de Salvador Allende, influência nos regimes militares do Brasil, Chile, Argentina, "y otras cositas mas".

De olho nas eleições que se avizinham, ele tenta levar a discussão para assuntos de seu interesse, deixando bem nítida a sua postura "sem sal, sem açúcar". Apenas sonha com os votos dos imigrantes, ao mesmo tempo em que ignora a importância dos hispânicos na economia americana e a forte corrente turística, principalmente de brasileiros que despejam dólares em seu país.

Por sua vez, Dilma expõe a doçura feminina, mas deixa visível o lado insosso quando não explora a força dos países emergentes, com destaque para o Brasil, e apenas critica a desvalorização cambial que tanto nos prejudica. Ela perdeu a oportunidade de expor ao presidente americano que, pela primeira vez na história, estamos falando no mesmo nível, sem a dependência que sempre nos caracterizou. Ufanismo? Não! Apenas a pura constatação de que o quadro mudou e que tudo o que serviu de pressão deles para com o Brasil, já não tem razão de ser.

Lado a lado, Obama e Dilma nos ofereceram uma imagem que os fotógrafos registraram para a posteridade. Uma imagem que nos remete à região piracicabana com a sua simplicidade, sabedoria e ironia. Iguais na falta de sal e de açúcar, na simulação, na dissimulação e na sensibilidade. Um verdadeiro "par de vasos".

Vitor Sapienza é deputado estadual (PPS), presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia e Informação, ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, economista e agente fiscal de rendas aposentado. Acesse: www.vitorsapienza.com.br

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